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Artigo

É da minha conta

18 de Fevereiro de 2019 as 17h 08min

Primeiro dia do mês. Você levanta, lava o rosto, escova os dentes, toma um café apressado e antes de sair de casa, deixa R$ 3,00 em uma latinha. Aquele com quem você divide os lençóis, faz o mesmo. Se tiverem um filho, serão R$ 9,00 no cofrinho. A conta sobe para R$ 12,00 se houver mais algum agregado.

No dia seguinte, o mesmo ritual: R$ 3,00 por cabeça antes de sair de casa. E assim, sucessivamente até o final do mês. E no mês seguinte, e no outro, e no outro... todos os dias você deposita R$ 3,00, mas nunca poderá retirar esse dinheiro. Isso não é uma metáfora, tampouco uma anedota.

Todos os dias, cada sinopense que engatinha, anda ou rasteja paga em média R$ 3,00 somente para manter o salário dos funcionários da prefeitura de Sinop. O município tem 3.164 pessoas contratadas cujos salários consomem por dia R$ 424,4 mil. Divida esse valor pelo número de habitantes (140 mil), e chegamos aos R$ 3,00 que todos depositamos todos os dias na caixinha imaginária. A gente percebe que paga essa conta porque ela vem colada com tudo que consumimos. Toda vez que alguém compra algo para si, sem vender para outro, está pagando essa e outras tantas contas. A propósito: não se engane com a fala de que empresário paga muito imposto. Na verdade ele só recolhe e repassa para o Estado (quando repassa). Quem paga é quem compra por último.

Mas voltando ao assunto: R$ 3,00 por dia. A prefeitura de Sinop está vendendo suas contas, do funcionalismo público, por R$ 6,5 milhões (preço mínimo). E, quando você precisa vender algo, a imprescindível apresentar todo o produto. O edital de licitação lançado pela prefeitura trouxe uma apresentação clara do que é a folha de pagamento do município de forma muito mais clara que qualquer material do “Portal da Transparência”. Compreensível, afinal de contas, a licitação foi feita para ser entendida.

E justamente por ser tão objetivo é que o Termo de Referência me assustou. Não pelo fato da prefeitura estar vendendo a sua gestão financeira. Eu já não me assusto com o poder público abrindo mão das responsabilidades para as quais foi criado. Foram as cifras que me impactaram.

Primeiro o óbvio: Sinop, ou melhor, a prefeitura, gasta R$ 12,7 milhões com salários por mês. Esse dinheiro é exclusivamente para pagar as pessoas que trabalham na prefeitura. Sabe a galera que trabalhou no asfalto aí do seu bairro? Eles não estão nessa conta, são de uma empresa que a prefeitura contratou. Sabe os lixeiros? Também não. Sabe os vigias das escolas? A maioria, também não. Sabe os enfermeiros da UPA? Então...

Mais de R$ 12 milhões de folha de pagamento não seria um absurdo para manter as coisas funcionando em uma cidade como Sinop. No entanto, na maioria das vezes que eu vejo um serviço público funcionando, quem está fazendo não é o cara que eu pago mensalmente para fazer. É um outro, terceirizado. Isso não parece fazer sentido.

Outra coisa que incomoda são os valores. Se pegar o valor da folha e dividir pelo número de funcionários, dá uma média de R$ 4 mil por cabeça/mês. Sabe, para mim salário a partir de R$ 4 mil é coisa de gerente. Por R$ 4 mil por cabeça você poderia ter mais de 3 mil “gerentes” na prefeitura e, se é assim, porque tanta coisa não funciona?

O intrépido leitor pode ponderar que os salários não são todos iguais e, portanto, a média não faz sentido. Verdade! Na análise da pirâmide salarial, a constatação é pior.

Na prefeitura de Sinop 766 pessoas recebem acima de R$ 4 mil por mês. Você consegue ver esses 766 “gerentões” trabalhando a plenos pulmões na prefeitura? Seguindo... destes 766 funcionários, 434 na verdade ganham mais de R$ 5 mil por mês. Dando sequência a decomposição, destes 434 servidores, metade, 215 ganham mais de R$ 7 mil por mês. Isso é salário de “cara bom” na iniciativa privada. Seguindo... destes 215, pelo menos 136 ganham mais de R$ 8 mil por mês. No topo da pirâmide temos 81 servidores que recebem acima de R$ 9 mil. Isso é salário. Se contar as bonificações, há categorias que beiram os R$ 20 mil mensais.

Vale frisar que apenas um funcionário da prefeitura recebe menos de R$ 1 mil por mês. Se você que estiver lendo for ele, meus lamentos, mas não fique triste: talvez você seja um dos poucos que produz mais do que recebe.

Jamerson Miléski

O Observador

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