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Artigo

Treta de Facebook na Câmara

03 de Junho de 2020 as 18h 43min

Se fosse para chutar, diria que menos de 1% da população sabe o nome do procurador jurídico da prefeitura de sua cidade. Aqui em Sinop, quem está lotado na função é Ivan Schneider, um advogado lá de Sapezal, que a prefeita Rosana chamou para cuidar dos processos da prefeitura.

Na regra, procurador jurídico ou está no Fórum ou nos mofados arquivos, lotados de precatórios, de um paço municipal. Mas, aqui é Sinop.

Na semana passada, Ivan resolveu “se expressar” em sua rede social. Ele publicou: “Se o mesmo empenho que as Câmaras Municipais dedicam à politicagem, fossem concentrados em pressionar o Governo do Estado a ampliar a rede de UTIs... Boa parte das angústias da população (que quer prevenção) e do comércio (que precisa manter-se ativo) estaria resolvida”.

Comentário genérico, de lógica limitada, que não serve sequer para ofender. Mas aqui é Sinop! Nossa plural Câmara de vereadores encontrou tanta relevância no post do “Face” que decidiu chamar o procurador para se explicar.

Que levantou o assunto foi o Ícaro Severo (PSL). O vereador leu a postagem, na tribuna, em tom de descontentamento. Billy Dal Bosco (DEM), veio na sequência, enchendo a boca para dizer: “O senhor se coloque no seu lugar e não nos meça com a sua régua”.

Mas quem pegou ar mesmo foi Adenilson Rocha (PSDB). O vereador exigiu que o presidente da Câmara convocasse o procurador para prestar esclarecimentos. “Se ele acha que não tem ninguém pra peitar ele eu estou aqui”, discursou.

Não foi uma “convocação”, mas a Câmara gastou duas folhas de papel A4 para “convidar” o procurador para fazer uso da tribuna e falar dos trabalhos do seu setor.

E, na sessão desta segunda-feira (1), lá estava Ivan. Mascarado – como a pandemia exige – o procurador cumprimentou um por um dos vereadores, fazendo breve relatos das relações que mantinha com cada edil – deixando claro que embora tivesse posições divergentes de alguns vereadores, considerava as relações “urbanas” e democráticas.

Menos com Adenilson Rocha. Ivan já cumprimentou o tucano com um marca-touro: “Vereador Adenilson, a relação que tivemos até hoje foi unicamente judicial, a qual graças ao bom trabalho, esse procurador só colheu louros, amargando derrotas à vossa excelência”.

O esculacho logo nas boas vindas continuou após os cumprimentos. Ivan disse que sua presença na Câmara era em função da opinião individual de dois vereadores (Ícaro e Adenilson). E terminou intimando Adenilson para que fizesse os questionamentos a respeito: “... se é que ele está preparado para abordar o tema”, alfinetou o procurador.

A mesa estava posta e tudo indicava que Ivan ia “jantar” Adenilson antes das 4 da tarde. Quando abriu a fala, Adenilson se enrolou, foi prolixo e nada lógico. Para ferir de morte sua presa, Ivan ainda pediu que o vereador repetisse a pergunta, pois não havia compreendido.

Ivan ia deglutir Adenilson. O procurador trouxe até trilha sonora para seu banquete. Quando terminou de falar que aquela era uma opinião pessoal, em sua rede social privada, Ivan tocou um áudio em seu celular, no microfone da Câmara. Era Adenilson Rocha, dizendo: “Vou deixar bem claro. É uma rede social minha, do vereador. Lá eu exponho minha opinião. Não preciso pedir a opinião de ninguém”.

O ex-Leitão já havia sido faqueado, mas o procurador ainda deu uma torcida no gume. Disse que Adenilson não deveria utilizar como “muleta” a Câmara de Sinop – “como você usa vez por outra” - , dizendo que a ofensa foi para toda casa de leis, “sendo que talvez a carapuça só lhe sirva”.

Se a sessão tivesse terminado nesse instante, Ivan estaria estufado, orgulhoso como um leão que abate uma gazela. Mas não terminou. Antes que pudesse digerir sua vitória no debate, acabou revelando o quanto estava vazio.

Quando a “treta de Facebook” deu lugar à assuntos mais relevantes, começou a dor de barriga do procurador. Remídio Kuntz puxou o asfalto do Alto da Glória e Ivan até tinha algo em seu trato para partilhar. Meio subjetivo, mas falou do assunto.

Depois disso, a única coisa que Ivan conseguiu arrotar na tribuna foi: “não sei”, “não estudei a respeito”, “não trato desse assunto em específico”, “vou me informar” e mais uma coleção de sinônimos.

Os vereadores perguntaram sobre os Distritos Industriais, sobre a Avenida Oscar Niemayer, sobre a intervenção da Águas de Sinop, sobre o seguro garantia para obras públicas, sobre a lei de liberdade econômica, sobre as placas de trânsito pagas antes da prefeitura receber, sobre os desfechos da CPI da Águia Construtora, sobre a obra na MT-325 Cruzeiro do Sul feita pela prefeitura no território de Ipiranga do Norte, sobre o prédio Histórico do Colonial...

Ivan disse que não estava acompanhando nenhum desses casos. Ou então que não havia se preparado para falar sobre eles.

Ivan foi para Câmara preparado apenas para a treta de Facebook. Apenas para “jantar” seu oponente. Acabou engasgado, com pouco a dizer.

Ficou feio para Adenilson, que provocou essa cena. Ficou feio para Ivan, que aceitou fazer só essa cena. E por fim, ficou feio para Câmara, que achou que era uma boa ideia.

Pelo menos, depois dessa, talvez 1,2% da população saiba quem é o procurador da prefeitura de Sinop.

Jamerson Miléski

O Observador

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