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Um homem chamado George Miguel João Pedro Floyd

16 de Junho de 2020 as 13h 18min

De repente ele estava caído no chão dizendo que não conseguia respirar depois de uma queda de seis andares de altura e com o pescoço comprimido. A solução foi calar-lhe com disparos de arma de fogo.

 

George Miguel João Pedro Floyd sempre teve um sonho. Poder destacar-se e, orgulhar a sua comunidade sempre foi sua aspiração. Morador no subúrbio da cidade agitada, imaginava um futuro. Poder dar uma vida digna para sua mãe que trabalhava de sol a sol como doméstica na casa de praia das socialites da capital, que, apesar das dificuldades de transporte e dores que lhe restava ao final do dia, tinha inspiração todos os dias que, cedinho se despertava para arrumar os meninos para a escola. Batalhadora como era, viúva de um marido morto as custas do álcool e sua consequente Cirrose, não deixava os filhos passar fome.

George ou Miguel como era chamado pela avó, a medida que crescia, se destacava por extremo desejo de mudar seu convívio. Trabalhou em uma oficina de carros como ajudante e, se dedicava muito. Chegou a ser promovido a mecânico, porém devido às circunstâncias diárias, precisou sair do emprego para dedicar-se ao cuidado dos irmãos e de suas convicções. Participa do movimento em prol da liberdade de crescimento intelectual das comunidades do País. A sua comunidade se destacava, pelo fato de manter dentro do convívio, espaço para o lazer, crescimento profissional com cursos práticos, atenção à saúde e religiosa. Uma verdadeira cidade. Devido ao seu ascendente potencial de oratória, o jovem adulto George se torna Presidente do bairro e, passa a aumentar ainda mais o poder de influência dos seus apoiadores. Torna-se conhecido como Pedro Floyd, atribuído pela origem do nome “a Pedra no sapato” dos opositores. Tinha uma fala áspera e pontual. Era o “Floyd” em seus discursos.

Ainda no início da vida adulta, entra para a faculdade jornalismo mas, por discordâncias ideológicas com os professores, decide evadir-se da Universidade ao segundo ano de estudos. Sua mãe acaba discordando da decisão do filho mas, o apoia pois, o desejo do jovem apresentava certas convicções acertadas.

Manhã nebulosa de outono na agitada cidade. Dia de discursos inflamados em prol da liberdade de expressão comunitária. O moradores se organizam para uma passeata pacífica pela avenida principal. Tudo parecia andar bem. A solicitação da liberação da avenida havia sido concedida, a polícia que era necessária para a contenção dos ânimos, já se posicionava. Em instantes a caminhada iniciou. Faixas de: “liberdade e igualdade para todos!”, “Pelo direito de expressão, credo, raça e gênero!” avançavam com o povo. Em instantes, um grupo de pessoas que passavam próximo, começa a insultar os manifestantes e uma discussão inicia. Pedro Floyd decide revidar com palavras de ordem e tenta apaziguar os ânimos. A troca de insultos intensifica e começa um confronto entre os grupos. Em um determinado momento um grupo saca uma arma e consegue afugentar os manifestantes. Floyd e outros participantes tentam fugir subindo as escadarias de um prédio que estava aberto naquele momento. São perseguidos até o sexto andar onde são acuados em uma sacada. Um dos perseguidores solicita a Floyd: “pule a sacada ou morre aqui mesmo!”. “por que o faria?”, pergunta o jovem negro. “Por que indivíduos escórias como você, o mundo precisa ficar livre!”. De repente, um estampido. Um tiro para o ar motivou o jovem Pedro a pular do prédio. A pedra rígida, cai na calçada do nobre edifício ainda com vida. Um desespero se forma. Os opositores se aproximam junto com a população em geral para verificar se o homem ainda respirava. Com voz embargada e respiração dificultosa: George clama: “não consigo respirar”, “por favor, tire…”, têm a sensação de como estivesse sendo estrangulado, sente-se sufocado. Aos poucos vai acalmando-se,com olhos lacrimejantes, um pouco de sangue formando no chão, porém, seguia lúcido. “Chamem uma ambulância” grita um expectador. “Não será necessário”, verbaliza um homem e, sacando a arma dispara um tiro na cabeça do jovem que agoniza. Aos poucos, Floyd emudece e, silencia definitivamente sua voz. Os opositores desaparecem rapidamente. Com medo de recidivas. A população que assistia, decidiu emudecer-se junto com o cadáver que esperava a polícia técnica e a remoção.

Alguns anos se passaram e ainda a grande comunidade, hoje, George Miguel, ainda lembra os grandes feitos de Pedro. Uma escola com o nome Pedro Floyd foi batizada e muitos Pedros, Georges, Migueis e Joãos surgiram a partir daquele dia. O desejo daquele homem ainda paira sobre aquele lugar. Os homens que tiraram a vida de Floyd, jamais foram julgados. Sua mãe, a senhora Mariele, inseriu-se no movimento de luta pela liberdade de expressão e, tornou-se uma grande líder. Morreu dias depois após a morte do filho. Ainda hoje, ressoa nas paredes das casas daquele lugar, o seu desejo por justiça.

Definitivamente, George Pedro não teve tempo de ser o cara Floyd que sempre desejou mas, conseguiu demonstrar que mesmo em seus últimos suspiros, com a respiração comprimida, ele conseguia em um esforço clamar: “vidas, sejam elas de diferentes raças, gêneros, pobres, femininas, de ideias divergentes, credos distintos, importam”. Importam muito.

*Este texto é uma crônica em forma de ficção.

 

*Julio César Marques de Aquino (Júlio Casé) é médico de Família e Comunidade pela SMS- Sinop/MT. Professor de medicina de pela UFMT campus Sinop. Autor do livro “Receitas para a vida” pela editora Oiticica. Contato: email: juliocasemed@gmail.com

Júlio Casé

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