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De Sinop para o mundo

GC Notícias | 07/11/2017 15:50

A gente vai vivendo e mudando com o passar dos anos. Os sentimento pueris sempre acompanhados de excitação pelo novo, na maioria das vezes vão se convertendo em uma rabugice e impaciência diante do que a vida vai nos mostrando no decorrer da caminhada existencial.

 

Mesmo diante desse quadro dramático, uma ou outra lembrança se mantém viva e nos faz ter uma ligação com aquela alegria passada há tantos anos. Somos adultos com um canal direto de comunicação com a criança que fomos. É como se a pessoa de hoje dialogasse com ela mesma no passado, compartilhando um sentimento saudável, motivador, cujas desilusões da maturidade ainda não conseguiram destruir.

 

Eu tenho vários desses canais, alguns bem firmes, outros cambaleantes e muitos extintos. Hoje falarei do amor pela terra, aquele sentimento abstrato que nos liga a um lugar, mesmo que este não corresponda necessariamente nem a projeção que temos deles e tampouco seja o mesmo que está presente em nossas memórias. É aquela história do rio e o fato de o que vemos já não ser o mesmo a cada segunda, posto que as águas vão se renovando. As águas nunca serão as mesmas.

 

Eu cheguei em Sinop no ano de 1987 com a minha família, naquela época a cidade era um campo coberto por sonhadores, que vieram para cá em busca de uma vida melhor. Esse desejo de vencer transbordava em cada um dos cidadãos e sempre sobrava neles a inspiração para fazer o município também crescer e aparecer. Antes de minha família chegar aqui o foco das lutas eram outros, primeiro estabelecer o povoamento, depois converter em sede das mais diversas instituições, depois se tornar uma cidade média e aos poucos ela se converteu em grande. É inegável que hoje Sinop goza de grande prestígio, é uma cidade enorme pelo local onde se encontra. Conta com uma boa infraestrutura e desponta nacionalmente como uma ótima opção para se viver, para trabalhar ou mesmo montar uma empresa.

 

O amor e orgulho da maioria dos cidadãos se renovaram como as águas dos rios, ou se adaptou como uma planta que cresce em meio a obstáculos. Assim foi comigo. Quando eu era jovem havia um grande esforço para falarem de Sinop fora da cidade e até mesmo fora do estado. Sempre que alguém citava o município em rede nacional, havia muita comemoração por parte dos habitantes, como se todos eles tivessem ganhado um prêmio ou efetuado uma grande proeza. Foi justamente nesses moldes que eu procurei fazer as minhas contribuições.

 

No decorrer da minha evolução profissional, a todo o momento que eu era entrevistado por um meio nacional ou internacional, fazia questão de citar a cidade. Muitas vezes essa parte da entrevista era ignorada, mas quando alguém a mantinha, era para minha pessoa uma alegria sem tamanho. Cheguei até a criar um álbum onde estampo os trechos em que Sinop aparecia nos materiais. Lá se acumularam citações em 10 idiomas: português, inglês, alemão, francês, vietnamita, italiano, chinês, grego, khmer e japonês.

 

Lá no fundo, eu imaginava que os cidadãos ficariam contentes com isso. Que essa postura pró ativa desencadearia um processo de maior interesse no campo de atuação (a computação gráfica) e que isso se desdobrasse em muitos projetos, palestras e ações aqui e na região. No entanto, isso não aconteceu. As minhas contribuições passaram despercebidas para a população e não causaram o efeito imaginado. Longe de me desmotivar, percebi algo interessante, na verdade fazer aquilo era mais uma questão de honra com o eu do passado, do que uma necessidade de ser aceito pelos cidadãos do presente. Se eu fiquei chateado ou entristecido? Sim, se eu disser o contrário será mentira. Mas, segui com os trabalhos e com o comportamento sem alterá-los, o que denota a incompatibilidade do agir com a pretensão de esperar algo de outrem.

 

Ainda hoje, quando sai uma matéria nova e citam Sinop, eu faço questão de ir lá, capturar a tela, marcar a palavra e compartilhar no meu álbum. É divertido, um momento nerd onde faço algo que me dá prazer e mantém a linha de contato direta com o eu do passado. Eu não sou quase nada dele, mas ele me ajudou a chegar aqui, de uma forma ou de outra. É como o amor e o respeito que temos pelos pais. Quando crianças os tememos o os vemos como símbolos de poder, conforto e abrigo. Os anos que passam quebram essa projeção e nos damos conta de que eles são como a gente e como os outros. No entanto, eles nos ajudaram a chegar até aqui e se não da melhor forma possível, certamente de uma forma funcional. Não posso falar por todos, mas esse respeito histórico desencadeia um sentimento de dignidade que me faz levantar todos os dias com aquele gás extra, como se alguém lá no futuro estivesse me observando e mesmo diante de todos os erros que cometerei, me respeita e não deixa apagar a chama dos meus trabalhos e dos projetos existenciais que um dia foram grandes novidades plenas de excitação.

Fonte: Cícero Moraes