Bom dia, Domingo 15 de Setembro de 2019

Política

“Sou governador, não fada madrinha”

Com 8 meses de gestão, Mendes fala dos avanços e da dificuldade de um Estado endividado

Mato Grosso | 03 de Setembro de 2019 as 17h 33min
Fonte: Jamerson Miléski

Foto: GC Notícias

“Não tenho varinha mágica para fazer o Estado melhorar da noite para o dia”. Essa foi uma das poucas frases de efeito que o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), soltou durante a entrevista exclusiva concedida ao GC Notícias. Mendes recebeu a reportagem em seu gabinete, na capital, durante a manhã da última sexta-feira (30). Diferente do seu antecessor – que dispensava um almanaque de frases de impacto – o atual governador tem uma fala mais resoluta: avalia sua gestão como positiva, reconhece as falhas do Estado e, principalmente, evita a todo custo fazer promessas – o que também restringe a possibilidade de arrancar um compromisso do governador. “Uma coisa nós não faremos: ficar mentindo para população dando datas que não serão cumpridas. Prometendo para agradar em um primeiro momento e depois criar grandes confusões [por não ser capaz de honrar]”, declarou Mendes.

Nossa reportagem rebateu o governador, indagando se, ao adotar a postura de não fazer promessas, o gestor também não acabava evitando de firmar compromissos com a população, estabelecendo metas de curto e médio prazo. “Só falo quando tenho certeza. Não preciso ficar prometendo. Fui contratado para entregar resultado, não para ficar fazendo promessa sem que elas tenham lastro na realidade”, respondeu.

O governador também evita mencionar o nome do seu antecessor. Ao invés disso, fala do “legado” herdado, pontuando as condições em que recebeu o Estado como um limitador do desempenho da sua gestão.

Durante a entrevista, Mendes foi enfático ao descrever o colapso financeiro do Estado. Segundo ele, quando sua gestão assumiu, o governo possuía mais de R$ 3,5 bilhões em restos a pagar (fornecedores). Além disso, haviam salários e 13º dos servidores atrasados e contratos em andamento impossíveis de serem mantidos. “Por isso decretamos um estado de calamidade financeira nas contas públicas de Mato Grosso”, explicou.

Como exemplo, Mendes citou os atrasos de 11 meses nos repasses obrigatórios para os municípios referentes a saúde; e também a situação da segurança pública, em que apenas 56% das viaturas da frota da Policia Militar e Civil estavam de fato na rua. “O que encontrei foram contas em todos os setores, em todas as secretarias. Não tínhamos dinheiro para pagar e honrar esses compromissos para melhorar a prestação de serviço”, pontuou.

Segundo Mendes, ambos os casos foram regularizados. A frota já foi recuperada e está completa, a disposição das forças de segurança pública. Quanto aos repasses para os municípios na área da saúde, o governador afirmou que o Estado está pagando rigorosamente em dia em seu governo – embora ainda esteja saldando os atrasados do ano passado.

“Entrei aqui na condição de governador, não de gênio [da lâmpada], nem de fada madrinha, que saia balançando a varinha e fazendo as coisas acontecerem. O que resolve o problema é trabalho sério, trabalho honesto, fé em Deus, dinheiro e tempo. Nós mostramos nesses 8 meses completos que melhoramos muitas áreas da gestão pública. Mas não temos nenhuma varinha mágica para fazer isso da noite para o dia, de um mês para outro, nem de um ano para outro. A administração pública é muito complexa, tem muitos problemas em todas suas áreas. Mas eu tenho certeza que em todas elas temos melhorias para mostrar”, declarou o governador.

 

Esfolando o contribuinte

Provocamos Mauro Mendes lembrando da entrevista que ele concedeu ao GC Notícias, quando ainda era candidato, em agosto de 2018. Na época, a palavra mais utilizada pelo então aspirante a governador foi “contribuir”. Mauro dizia que queria “contribuir” com Mato Grosso. Considerando os primeiros meses do seu governo, com a minirreforma tributária promovida pelo PLC 053/2019 (que aumentou a carga tributária de alguns setores), o programa Nota MT (para otimizar a arrecadação), e a volta de operações realizadas pela Delegacia Fazendária, indagamos se para Mendes “contribuir” era preciso que o contribuintes contribuísse primeiro?

Mendes retrucou. “A primeira medida que nós fizemos no estado como governador foi cortar despesas. Tínhamos 25 secretarias. Eu reduzi para 15. Nós cortamos cargos comissionados, empresas [públicas] e estamos com um programa de demissão voluntária. Antes de pedir a contribuição, eu cortei na carne. Cortei dentro do governo e continuo cortando todos os dias”, afirmou.

O governador disse que tem feito ações para melhorar a receita e diminuir a despesa, melhorando a qualidade do gasto público. “Isto tem produzido um resultado concreto, que tem gradativamente melhorado a condição financeira e a própria prestação de serviço. Não conseguimos pagar ainda toda a dívida que a gestão passada deixou”, respondeu. “Estamos ainda muito distante daquilo que é necessário, mas nós temos certeza de estar no caminho certo”, completou.

 

500 obras paradas

O GC Notícias levou para entrevista imagens de 3 escolas do Estado que foram iniciadas e abandonadas antes de serem concluídas. Nessa relação estava a Escola Cleufa Hubner – obra oriunda de um convênio firmado em 2011, licitado em 2013, que atravessou a gestão inteira de Pedro Taques sem ser concluída. No momento está paralisada com aproximadamente 50% da obra executada. Também mostramos a escola do Jardim das Orquídeas, da mesma época, na qual apenas a cobertura da quadra esportiva foi executada e a obra abandonada. Por fim, estava a nova sede da Escola Nossa Senhora de Lourdes, no Terra Rica, que teve apenas a caixa de água instalada.

Mendes começou respondendo o problema de forma macro. Segundo ele, quando assumiu o governo fez um levantamento que apontou 500 obras públicas de responsabilidade do Estado que estavam paradas. “Retomamos 150 dessas obras”, afirmou.

Segundo ele, há poucos dias ele se reuniu com a secretaria de Educação para tratar da retomada de mais de 30 obras. Nessa relação estava a Escola do Jardim das Orquídeas, cuja ordem de serviço deve ser lançada na próxima semana. “Estas obras serão reiniciadas e já contam com o recurso necessário para finalizar. As obras que não forem retomadas é porque ainda não encontramos soluções financeiras para tal. Não temos condições humanas, de pessoas, muito menos o dinheiro necessário para retomar todas”, declarou.

Depois de falar do contexto geral do Estado, Mendes se voltou às fotos, que evidenciavam as condições das obras paralisadas em Sinop. “Isso aqui é uma vergonha da administração pública. [E como essas escolas] temos tantos outros em Mato Grosso. É uma vergonha que o cidadão deveria sentir quando escolhe mal seus representantes. Nós somos o que somos porque muitas vezes as pessoas não se preocupam com a qualidade do voto. Vota de qualquer jeito, vende voto por míseros trocados ou por interesses. Quando escolhemos mal, esse é apenas um dos exemplos das consequências de nossas escolhas”, discursou.

 

E a saúde?

Mendes também foi questionado quanto a saúde pública no Norte de Mato Grosso, em especial dos Hospitais Regionais de Sinop, Sorriso e Colíder – principais estruturas para atendimento de média e alta complexidade na região.

A fórmula de Mendes para saúde é a mesma para as demais áreas da gestão: fazer mais com menos. Mendes lembrou que reduziu o custo mensal do Hospital Regional de Sinop em 48% extinguindo o contrato com uma empresa terceirizada e fazendo a gestão direta. O governador trata o corte no orçamento como “ganho de eficiência”. “Dinheiro público tem que ser gasto e bem gasto. Não cortamos o orçamento, cortamos despesas desnecessárias. [Vamos] pagar valores justos, conter desperdícios e evitar desvio de dinheiro público, tanto em Sinop, quanto em Rondonópolis”, provocou.

Com a transição da gestão, o Hospital Regional de Sinop saiu de uma média de 60 cirurgias mês para 220 procedimentos mês – o que confirma a tese de “ganho de eficiência”, defendida pelo governador. No entanto, a estrutura instalada permite até 400 cirurgias/mês, o que só não acontece por falta de profissionais. Questionamos se Mauro tinha um plano para aumentar a equipe e se isso aconteceria via concurso público. “Não temos condições de fazer nenhum tipo de concurso público. Porque o Estado está estourado na lei de responsabilidade fiscal, gastando mais de 49% com pessoal. E quando isso acontece existe uma proibição clara e objetiva. Tomaremos as decisões a luz da legislação brasileira e das necessidades de Mato Grosso. Temos tempo para tomar essa decisão”, respondeu.

O governador citou que está realizando processo seletivo para contratação no hospital regional de Sorriso, que passa por uma reestruturação. “Terminando a reestruturação de Sorriso, depois nós vamos fazer outros projetos para melhorar a infraestrutura pública de todos os hospitais regionais. Um por vez porque não temos gente nem dinheiro para fazer tudo de uma vez”, justificou.

Confira abaixo o vídeo com a entrevista na íntegra.

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